::: Tirando Pó :::

Pensamentos guardadas em textos engavetados. Sentimentos usados, sensações semi-novas.

30.1.07

Naquele Lugar

“Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa, vê o horizonte deitar no chão”

(Marisa Monte)


Photobucket - Video and Image Hosting Lá não amanhecia simplesmente. O sol despertava já disposto, sorrindo a quem mostrava os dentes na janela. O céu no amanhecer era de um laranja bonito que tornava-se completamente azul ao longo do dia, quase não havia nuvens, o que o transformava em um palco onde a passarada dava o seu espetáculo diário.

As ruas eram limpas, estreitas, feitas de paralelepípedo. Ali ninguém ousava jogar lixo no chão e a cidade exalava um cheiro bom de flores, de mato. Mas no verão ela cheirava a frutas, um cheiro de praia, um cheiro de férias.

Lá nunca era muito quente, nem muito frio. Chovia na hora e na medida certas e ao anoitecer a lua mostrava seu sorriso cúmplice para os amantes. Em noites de lua cheia, nenhuma luz se via na cidade, era a lua que a iluminava por completo, deixando um rastro nos rios que hipnotizava os peixes, os pescadores e todo o lugar.

Ali todos davam bom dia, boa tarde, boa noite e ao pôr-do-sol o cantar dos passarinhos eram quase como uma melodia que se despedia do dia para abraçar a noite calma e serena. A vizinhança toda se conhecia. Ninguém era mais rico ou mais pobre. Não faltavam frutas, peixe, leite, comida. As árvores eram abastadas, os campos eram verdes, os animais eram fortes e as pessoas saudáveis.

As crianças não trabalhavam e todas estudavam. As moças colhiam flores que enfeitavam seus cabelos e vestidos. Os idosos eram respeitados e sábios, proferiam palavras que o lugar inteiro ouvia, seguia e apreciava. Ali todo dia se aprendia algo e se ensinava a ser ainda melhor. É que todo dia era melhor que o anterior.

As famílias eram unidas e as pessoas também. Se algum estranho aparecia, logo o deixava de ser, era acolhido e aceito, e por ser lhe dada tamanha confiança e respeito, nenhum deles tinha coragem de fazer mal qualquer para aquele que lá moravam e logo aprendia a ser um pouco mais humano.

Era um lugar de gente um pouco mais humana. Um pouco mais alegre, um pouco mais esperançosa, um pouco mais educada. E um pouco menos rancorosa, um pouco menos vingativa, um pouco menos egoísta e assim, um pouco menos doente. Lá não havia guerra e não, não era preciso brigar, gritar, disputar. E ao contrário do que possa parecer, não era entediante morar lá.

Para cada moça de flor no cabelo havia um par. Para cada chapéu a sua saia, para cada pé o seu sapato. A todos era dada a chance de um verdadeiro e duradouro amor e todos a recebiam de braços abertos, deixando brotar o fruto mais verdadeiro deste sentimento. E os filhos cresciam em harmonia com a natureza, com a força humana da bondade e multiplicavam-se ainda mais em amor.

Ali se chorava sim e porque sempre existem dias em que ficamos tristes, até porque a felicidade só é felicidade se houver a tristeza, senão nem saberíamos o que é ser alegre. Mas o choro cessava rápido e sempre havia um ombro pronto para o consolo, parece que lá Deus estava mais perto de todos.

O verde era verde, o azul era o mais anil, não havia fumaça, não havia cinza, só havia cores e o arco-íris sempre estava sorrindo no céu. Ali se chamava amor, ali se chamava paz, esperança. Ali se chamava sonho.

22.1.07

Alucinógeno

Photobucket - Video and Image Hosting Eu nunca tomei um ácido. Mas imagino que a sensação deva ser essa: uma suadeira nas mãos, felicidade e excitação, talvez até acelere o coração, cores mágicas, provocantes, provavelmente causando alucinação, ilusão, qualquer paranóia delirante. E foi exatamente assim que eu me senti depois dele.

Não me lembro seu nome ao certo, mas sei que tinha os olhos mais brilhantes e castanhos que já vi na vida. Eles tinham vida. Foi coisa rápida o olhar que eles me lançaram e mal recordo as palavras que trocamos. Mas lembro do cheiro que senti quando o seu rosto aproximou-se do meu para falar ao pé do ouvido. Até ali eu mal sabia o risco que corria. Mas eu queria, sempre quis saber no que ia dar. Queria prová-lo, mas por medo, deixei-o escapar. E ele sumiu, derreteu.

Como a vida tem dessas coisas - brinca com a gente num jogo de gato e rato –, ele um dia então reapareceu, e para minha surpresa não havia esquecido, assim como eu, da fatídica noite em que nos conhecemos. O olhar continuava o mesmo, senão um pouco mais bonito do que eu lembrava, a sobrancelha ajudava a marcá-lo ainda mais. Eu não lembrava como era a sua voz, mas quando a ouvi novamente, soou como uma melodia gostosa, sedutora, encaixava-se perfeitamente aos meus ouvidos. Conversávamos muito. E era bom ouvi-lo, não só pela voz, pelo cheiro da boca, mas pela falta de pudor de nossas conversas. O pudor é uma droga - que não causa nenhum barato. De repente estávamos ali confessando coisas que eu nem diria inconfessáveis, mas no mínimo, íntimas demais para o pouco tempo de relação. Mas me vi despida de uma tal forma que, quando vi, ele já estava ali, mais nu do que eu. Contou alguns segredos engraçados, obscuros, coisas que até poderiam me chocar, mas ditas por ele, me pareciam tão comuns.

Ele era ácido, como eu. Quando o beijei pela primeira vez, senti tudo ao meu redor ruir. Tive a ilusão de que o tempo parara. Eu tive visões. Não era o beijo, o melhor beijo do mundo, ou a pegada, não, mas é que ali era o melhor momento do mundo. Aquela era a grande droga que eu havia finalmente experimentado. Com ele era como se por vezes eu olhasse no espelho e reconhecesse a mim mesmo. O senso de humor, alguns gostos, a forma de pensar, o jeito que apreciávamos a vida e como lidávamos com ela. Éramos dois hedonistas vivendo o prazer do momento na sua forma mais plena.

Talvez suas confissões fossem equivocadas e as juras da boca pra fora, uma súbita vontade de que o efeito daquela droga não acabasse, mas era tão bom acreditar naquilo... Talvez eu também estivesse sob o efeito entorpecente dele e acreditasse que ainda poderíamos ter mais alguns dias em claro, que merecíamos mais uma dose, mas uma injeção, mais um tapa, mais um teco, mais, mais, mais até que enjoássemos de vez. Nada que me fizesse resistir ao vício iminente.

Mas o dia clareou enfim, e o relógio riu de mim. E aqueles segundos, na verdade, se converteram em horas e eu precisava acordar. Ainda sentia o arrepio da sua língua em meu pescoço, o cheiro bom da boca, suas mãos em mim, e mal havia tido tempo de perguntar o seu nome. E lá no fundo, quase inaudível, era possível ouvir a música que tocava: “Foi assim como um resto de sol no mar, como a brisa da preamar, nós chegamos ao fim”...

16.1.07

Asas de Borboleta

Pisei numa borboleta. É, pisei, não vi como. Na copa da agência onde trabalho. Aproximei-me da pia para pegar uma xícara, que iria servir de cinzeiro para o meu costumeiro cigarro de fim de expediente, e quando me afastei vi. Ela estava no chão, as asinhas ainda se debatiam um pouco. E não sei porque fiquei olhando pra ela durante alguns segundos e comecei a pensar. Tenho medo de borboletas, apesar de achá-las lindas. Certa vez, me descrevi como uma borboleta, eu era uma larva, sai do casulo, ganhei asas, sai voando. Elas têm liberdade, cor e numa certa fase de descobrem, se transformam e alçam o seu vôo poético. E assim, olhando aquela borboleta fiquei a pensar quantas vezes pisamos em nossas próprias asas. E assim esse texto me veio imediatamente a cabeça.

Terminei o cigarro rápido e sentei na frente do computador para escrever. O fim do ano é agora e quase todo mundo quer ler algo bom sobre as expectativas de uma suposta nova vida que vem pela frente junto com o ano que vem por aí. E eu não tinha absolutamente nada para escrever aqui.

Quando comecei a escrever foi por puro prazer – e ainda o é. Mas naquela época eu escrevia quando sentia vontade, quando algo me inspirava. Foi escrevendo no meu fotolog que uma pessoa chamada Tiago Paolelli começou a deixar recados elogiando os pequenos textos. Ele tinha um site literário, onde vários escritores amadores se reuniam para publicar suas crônicas, e tive a felicidade de ser convidada por ele para escrever lá. Felicidade mais ainda foi depois ter virada amiga íntima, pessoal e confidente desta figura humana maravilhosa. E foi por ele, pelo potencial que ele enxergou que vim parar aqui. Passei por outros portais até que minha antiga professora, do curso de jornalismo, me fez o convite de escrever para o portal ORM. De repente, me vi na responsabilidade de escrever semanalmente. E isso é tarefa difícil. É muito diferente escrever quando a inspiração bate e ter o compromisso de escrever sempre, porque a minha preocupação é nunca deixar que os textos percam a sua qualidade. Vocês não podem imaginar o meu desespero quando vejo o dia da entrega se aproximando e eu, simplesmente, não pensei em nada!

Confesso, já que estamos mesmo agora tão íntimos, e o fim do ano é uma boa data para confissões, que na maioria das vezes não fico satisfeita com meus textos. Talvez isso seja uma coisa comum entre os escritores. Sempre achar que não estar bom. E então entro aqui e vejo tantos recados de pessoas que eu nunca vi na vida e que me tratam com a intimidade de uma amiga. Vejo que elas se identificam com os textos, vejo que muitas saem tocadas, outras dão risada, mas de qualquer forma, gastam um pouco do seu tempo para ler e ainda deixar um comentário. E aí vejo que o tal texto que nunca achei tão bom, serviu sim para acrescentar alguma coisa, nem que seja, um momento de diversão e relax.

Pois então, eu pisei na minha asa. E hoje, vendo a borboleta aconteceu o inesperado: escrevi dois textos (e este é um deles) em menos de uma semana. Há muito tempo não me sentia tão inspirada a ponto de escrever dois textos num espaço curto de tempo. Até porque trabalho o dia inteiro e o tempo é uma coisa que eu não sei muito dividir. Então eu vi que aquela borboleta no chão já não podia mais voar, mas eu ainda estava ali, com as minhas asas. E pensei no meu ano, na minha vida, em como 2006 começou e como ele tomou um rumo completamente diferente no final. Faz quase um ano que escrevo aqui. Terminei e recomecei uma história de amor. Ganhei tranças, tirei tranças. Fiz amigos novos. Assisti ao show do U2 e dos Rolling Stones em pleno Rio de Janeiro. Conheci Carolina e tomei banho de cachoeira com meu namorado. Vi um arco-íris. Bati o carro. Comecei uma terapia. Larguei logo depois. Li alguns livros, assisti a muitos filmes bons. Arranquei dentes. Ganhei presentes maravilhosos. Reinventei a amizade com a minha mãe. Tive brigas horríveis com pessoas que amo, sofri decepções e cheguei até a pensar que meu ano não valeu de nada. Mas quando parei para pensar me toquei do mais importante que aprendi: me entendi. Me aceitei, me descobri, me reconheci, me transformei como uma borboleta. E não importa se você não entende o que estou dizendo ou se me conhece não percebe as sutis mudanças. Importa o que sinto dentro de mim. Sinto as asas tomando forma, as cores que ganhei e sinto que cresci e me tornei de alguma forma uma mulher muito melhor, uma pessoa melhor. Dizer que não me arrependo de nada que fiz neste ano é uma grande mentira. Arrependo-me de muitas. Mas quem não se arrepende de algo que fez, ou diz que não se arrepende está certamente mentindo. Se você não se arrende de nada é porque simplesmente não aprendeu nada. E eu aprendi que a vida é muito simples, as pessoas também, é que nós simplesmente insistimos em pisar nas asas das borboletas, e mesmo a achando lindas, temos medo delas.

Eu peguei a borboleta no chão, coisa que não faria jamais, olhei-a bem de pertinho, ela já estava morta. Devolvi-a pro mesmo lugar. Mas sabe lá onde a alma dela deve estar.

P.S. Feliz Ano Novo a todos que entram aqui para dar uma espiada, aos que comentam, aos meus amigos de blog, fotolog, e a pessoas que fizeram do meu 2006 especialíssimo pelo menos em algum momento ou em todos: Minha mãe, dinda, Caio, Caila, Luccas, Riba, Vô, Babo e minha família toda, meus amigos do trabalho, especialmente Thiago e Armando, Aliyan, Zica, Andrezza, Ecy, Desirée, Silvia, Portugal, André, Pepa, Sérgio, Glauber, Koala, David, Palmitto, Diogo Lavareda, Paolelli (os dois), Eduardo Sela, Robinho, Léo, Médici, , Amandinha, Marcela, Arthurzão, Laércio (e toda turma do Bob Esponja), Lora, Moara, Doda, Rafael, Randy, Joanna, KK, Alexandre, Ricardo Proença, Rainero, Sandro, Paola, Zenaide, Fran, Mairão e se eu esqueci de você aqui, tenha certeza, que foi por problemas de “gagázice”.
O ano ainda não acabou e quando ele acabar eu vou estar em Ipanema, em grande companhia! Até janeiro!

24.12.06

Amigo Invisível

E de repente começa aquele bafafá dentro da sua empresa: “quem vai participar do amigo invisível?”, aquela chata do setor de recursos humanos já entra gritando com o saco cheio de papeizinhos com os nomes na mão. Primeira pergunta retórica: quem vai participar. Você TEM que participar. Se disser que não quer é um antipático que não participa das coisas da empresa, não gosta de alguém e além do mais, todos os nomes, incluindo o seu, já estão ali no saco para serem tirados, mesmo que você não queira. Portanto, você pode estar endividado, liso, leso e louco ou até de férias, mas vai participar, meu amigo.

Aí começam a ser tirados os nomes. E quando você pensa que está em paz porque entrou é aí que a coisa começa a piorar. “Ai, eu tirei o meu próprio nome!”, troca. “Ah, não, troca comigo, por favor, eu nem conheço essa pessoa”, troca. E é um tal de troca, troca, é todo mundo tentando adivinhar quem tirou quem e sempre tem aquele chato que diz que você o tirou e entra todos os dias de manhã na sua sala para fazer a mesma brincadeira: “e aí, já comprou meu presente?”

E a lista de sugestões? Tem de tudo, desde havaiana, regata, cd, livro, que são presentes razoáveis até perfumes importados e calça jeans da gang. Mas o pior é quando pedem “qualquer coisa”. Onde se compra isso? Como qualquer coisa? Pode ser um band-aid, um vaso, um xaxá? Mas calma, não se preocupe. Provavelmente você não vai ganhar nenhuma das coisas que pediu, porque o seu amigo invisível vai comprar o que lhe der na telha e jamais vai bater perna atrás do seu cd de jazz. Você vai ganhar um livro de auto-ajuda, uma blusa que ou não cabe em você ou uma agenda do Remo, porque ele (o seu amigo) nunca reparou que você é Paysandu. Quem sabe você não ganha um sabonete?

Chega finalmente o dia da festa. Metade do pessoal da empresa já sabe quem tirou quem, a outra metade está caindo de bêbado e mal sabe dizer o nome do seu amigo invisível. O chefe faz um discurso, todos aplaudem sem nem tê-lo ouvido, enquanto outros se debatem por alguns salgadinhos. A música ambiente que está rolando é “Amigos para sempre”, cantada por um anão que também toca teclado. O amigo invisível começa e pior: todos têm que cantar os nomes no microfone.

Os nomes vão saindo um a um e a cada entrega é obrigatório a pose para a foto, claro. Aquele sorriso amarelo, aquele abraço sem graça e o embrulho todo amassado do Belém Importados na mão. Você continua sentado e nada de cantarem seu nome. Até então você está agradecendo estar sendo deixado para trás, quanto mais Deus adiar a sua ida ao microfone, melhor. Mas aí você começa a perceber que todo mundo vai saindo e você continua sobrando, é muita sorte, não pode ser. Até que não sobra mais ninguém e você descobre que o cara que lhe tirou é invisível mesmo: não apareceu na festa e você ficou sem presente. É, tava bom demais pra ser verdade. Além de anunciarem que você foi o “lara” do amigo invisível em alto e bom som no microfone, você acaba ficando com o presente que outro camarada comprou para o tal invisível. O famoso prêmio de consolação. Só que quem lhe tirou era mulher... E você volta pra casa com uma linda camisola ou um estojo de maquiagem. É, meu amigo, Feliz Natal.

19.12.06

Quero ser grande

Rodando sem rumo de carro por uma Belém mais entediada que nós, minha amiga levanta - em meio a tantas confissões mútuas de mil problemas – uma questão que de tão óbvia dói: era tão bom ser criança...

Quando eu era pequena meu maior sonho era simplesmente crescer. Tenho certeza que você também partilhava da mesma vontade inexplicável de virar adulto antes do tempo. Para mim e para você parecia muito mais vantajoso ser adulto, às vezes até muito fácil. Poderíamos fazer o que quiséssemos, ou pelo menos achávamos isso. Teríamos liberdade, ninguém mandaria em nós, teríamos dinheiro, poderíamos dirigir ou ficar acordados até mais tarde, namorar, usar salto alto, gravata. Quantas vezes brinquei com uma máquina de escrever velha... Eu era a jornalista, a secretária, a escritora e trabalhar na minha brincadeira parecia fácil. Ai, ai, como queríamos ser grandes.

Hoje fazemos quase tudo o que queremos, mas temos o bendito senso para discernir o que realmente podemos. Temos a nossa liberdade sim e a nossa tão almejada vida adulta. E com ela temos problemas. Muitos problemas. Temos a responsabilidade das contas, das dívidas, dos compromissos inadiáveis, do trabalho que não é tão fácil como nas tardes ociosas de quando éramos moleques. Temos que crescer. Tomar conta de nossas vidas e às vezes de outras vidas cedo demais: filhos, pais, nossos escolhidos para nos levar ao altar. E aí chegamos ao dia em que no fundo, no fundo nosso maior sonho é simplesmente voltar a ser criança.

O trabalho de Estudos Sociais inadiável que valia 5 pontos não parece hoje o maior problema do mundo. Nem o fato do garoto mais bonito da escola, de quem você era a fim, estar dando bola para a novata. Ter que tomar banho no meio da brincadeira não causa mais tanto ódio. Ficar de castigo era até bom. Tão bom como só ter que estudar e nada mais e nem entender o que diabos é Imposto de Renda.

Crescer é tão difícil e não tem esse nome à toa. Amadurecer às vezes acontece à duras penas. E a gente começa a se deparar com problemas de verdade, de gente grande. E a lidar com pessoas que te apunhalam pelas costas e aprender a ter um bom faro para reconhecer os poucos que vão te proteger dessas facadas. Um bom faro também para determinar quais problemas são realmente urgentes ou realmente problemas e quase ou nenhum faro pra descobrir a melhor solução de resolvê-los.

É claro que daqui a alguns anos nada disso vai fazer muito sentido, porque até os nossos problemas reais de hoje vão parecer totalmente banais com os que teremos mais tarde. Criar urticária por um problema de cartão de crédito ou desejar a morte por um pé na bunda, tudo isso vai ser dos males o menor, porque quanto mais crescemos mais espaço temos para problemas maiores que nós. É incrível como o crescimento é proporcional.

Mas esse não é para ser um texto pessimista ou depressivo, não. Crescer tem suas vantagens sim, claro. A cada ano ficamos melhores e mais espertos, mais vividos e saboreamos nossas conquistas feitas com as próprias mãos. Mas é apenas para lembrar que nada é o que parece e que nunca estamos satisfeitos, mas principalmente que para ganharmos alguma coisa sempre teremos que abdicar de outras. E dessa vez infelizmente, da inocência. Eu não quero ser grande.

8.12.06

A Dança

É que tu me fazes tão bem que mesmo quando cometes os teus deslizes eu não consigo te odiar. Talvez te odeie por alguns segundos e te odeio tanto que no segundo seguinte já te amo novamente. Porque o amor e o ódio andam muito juntos. Assim como o amor e a dor. É quase desmotivante a irrefutável verdade de que se amamos, iremos sofrer um dia ou outro inevitavelmente. Quando depositamos muito sentimento, expectativa em alguém é quase impossível que um dia não nos frustremos, porque ninguém é igual e nada, infelizmente, é eterno. Um dia você vai sofrer uma decepção, vai chorar, vai doer. Um dia você vai decepcionar alguém, mesmo que não seja a sua intenção.

Mas imagine se fôssemos tão racionais a ponto de lembrar disso e não mais amar. Quantas vezes chorei por amor e no mais breve cessar de lágrimas me apareceu um outro alguém que me fez momentaneamente esquecer que o sofrimento existe, que me fez desconsiderar que um dia eu passaria novamente pelo desconforto e tristeza do fim. E eu recomecei a dança novamente, cega mais uma vez, perdida na ignorância típica dos amantes.

É que quando te conheci aconteceu a mesma coisa, mas dessa vez foi pior do que eu pensava. Eu não só esqueci que amor e dor andam juntos e se fazem até rimar, como realmente duvidei de tal verdade. Briguei com os mais crédulos, jurei até que nunca havia acreditado ou sequer ouvido alguém falar sobre isso. E vivi a tal eternidade dos nossos dias na maior plenitude, sem nunca acreditar que o fim chegaria. Ele chegaria para todos, para o meu vizinho, para a minha amiga, para a moça que atende ao telefone no trabalho, para as atrizes de TV, para o casal namorando no banco da praça, para Romeu e Julieta, mas não se atreveria a chegar perto de nós.

Mas foi aí que um dia, desavisada acabei abrindo a porta para ele. E quando ele entrou como um furacão doeu como nunca havia doído antes. E nós precisávamos rapidamente arranjar algum culpado por ele ter descoberto nosso endereço. E burros apontávamos as mais doloridas palavras um para o outro e nos feríamos da forma mais mesquinha, chegava a ser impossível te reconhecer. Nem eu mais me enxergava no espelho. E deixamos de ser tu e eu. A alegria dos outros casais me enojava. Todo bom dia bem dado me irritava e ver que os outros eram felizes me causava urticária. Naquele momento parecia que o mundo ria de mim e que todos eram mais felizes do que eu. Egocêntrico o sofrimento do amor, parece que só eu tinha problemas e ele era o mais dolorido e insolúvel do mundo. E egoísta porque me doía te imaginar feliz. E imbecil porque acreditava realmente que tu não sofrias como eu.

Mas tu sofrias, mesmo enlaçado em outra boca, tu sofrias e fechavas teus olhos para pensar em mim. E eu no conforto de outros braços, te desejava ver mais infeliz do eu, e fingia estar bem. E disputávamos a falsa felicidade de estarmos separados. Como troféu ganhamos um grande tempo perdido, um coração mais partido do que antes e nos perdemos. Mas eu não sei mais julgar relacionamentos, porque foi desse jeito cruel que tu descobriste o quanto eu te era necessária, importante, única. E foi desse jeito que percebi que seria impossível deixar o fim entrar assim, sem ser convidado. Foi desse jeito estúpido e desnecessário que tu me percebeste insubstituível, que o meu lugar no teu coração não poderia ser tomado assim por qualquer boca insignificante. E eu descobri que até teus defeitos me eram necessários. E nós descobrimos que talvez o mundo não estivesse errado: amar é sofrer. Mas se isso vai nos fazer crescer ou definhar depende de nós. E de repente, tínhamos ali um pouco mais de cautela e mantínhamos a janela sempre entreaberta para não receber a visita indesejada do fim, da dor. E tu me confidenciaste o teu pecado e me pediste perdão. E eu te dei o acalento que só os que amam sublimemente dão. E nos demos novamente a chance de viver um pouco mais da tal eternidade nos dias, fingindo a ignorância dos amantes, driblando secretamente o fim, depositando nossas fichas no amor, nos testando com a verdade sem medidas, na esperança de recuperar o que na verdade nunca perdemos e que nunca morre em quem entende os passos dessa dança.

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2.12.06

Pin-ups Modernas

Pin-ups Modernas
Luly Mendonça
Tenho um fascínio por Pin-ups. Acho que toda a mulher tem. Aquela sensualidade sutil, as poses que lembram a molecagem de uma ninfeta, a langerie que a vovó usava pra seduzir o vovô, e o cabelo e a maquiagem de uma época em que a ser sexy era ser chique.

Imaginem como seriam as pin-ups hoje? As meninas usariam a cueca preta do namorado, uma bota, baby look de banda de rock ou com inscrições mal-educadas em inglês, o cabelinho curto e desfiado seria azul, rosa ou verde. Cheia de tatoos e piercings, obviamente. Ah, o cigarro na mão, sem a piteira da época, e a língua pra fora, no lugar do biquinho, seriam indispensáveis. Mas não pensem que ela sequer sabe o que significa o que está escrito em sua blusa, ou ouve a tal banda de rock. Ela diz que a tatuagem não doeu nada, mas na verdade ela quase tem um ataque epilético e nervoso enquanto o tatuador fazia o seu trabalho, o piercing no umbigo é só pra seduzir os homens e ela usa o da língua com a desculpa de que “fez num lugar escondido porque é pra ela e ninguém precisa ver”, mas sempre que pode põe a língua pra fora na foto. Está louca pra se apaixonar, mas faz pose de auto-suficiente e escrotona.

As pin-ips modernas bebem muito. Aprenderam a encher a cara cedo, quando ainda deveriam brincar de barbie, só pra se sentirem legais. Em muitos quadros e posters estariam segurando sua garrafinha de cana entre as pernas, ou dando um beijinho na lata de cerveja ao lado de outra pin-up. Algumas moças estão tão engajadas para manter essa imagem que nunca terminam a noite sem vomitar. Quando você vir o pôster de uma pin-up moderna com a mãozinha na boca e aquele olhinho arregalado de espanto, não é charme, é apenas para segurar o vômito. Porque as pin-ups modernas precisam se divertir muito e diversão para elas é cair na farra. Afinal, o que contarão para seus filhos quando crescerem? Que a única coisa que fizeram na sua juventude foi perdê-la de bar em bar. Em compensação você nunca as verá segurando um livro, em pose sapeca, a não ser que seja a última edição de Caras.

Pin-ups dos anos 2000 não mais irão aparecer com seus lindos cachinhos e laçarotes na cabeça. Se elas não alisarem na marra e deixarem o cabelo uma maçaroca indefinida estilo juba de leão, elas apelam para a escova progressiva para ter seus lisos a qualquer custo, ainda que a raiz as denuncie e que o cabelo fique com cara de passado a ferro. Força na chapinha, assumir os cachos, jamais! Portanto, nossas pin-ups não podem fazer poses meigas sob a chuva. A não ser que carreguem sombrinhas obviamente.

Nossas pin-ups também não serão vistas com o típico sutiã de bojo e bicudo, porque todas elas têm silicones e aderiram a moda de mostrar os peitos a qualquer custo ou, pelo menos, deixar o mamilo marcar a blusa. As nossas pin-ups foram fabricadas em uma sala de cirurgia e exibem a barriguinha plastificada e os seios durinhos pagos pela mãe. A bochecha não está corada, e se estiver é por conta do bronzeamento articial que ganhou de aniversário.

Algumas de nossas lindas pin-ups também aparecem em outras vestimentas, mais modernas. Elas usam calça jeans da Gang, claro, para levantar o bumbum, mas não percebem que a derrière só fica mais achatada e vulgar. E por favor, não a façam segurar um pirulito como uma lolita. Estragará a sua dieta.
Ah, pin-ups modernas, garotas de plástico...