Naquele Lugar
Na varanda, quem descansa, vê o horizonte deitar no chão”
(Marisa Monte)
Lá não amanhecia simplesmente. O sol despertava já disposto, sorrindo a quem mostrava os dentes na janela. O céu no amanhecer era de um laranja bonito que tornava-se completamente azul ao longo do dia, quase não havia nuvens, o que o transformava em um palco onde a passarada dava o seu espetáculo diário.As ruas eram limpas, estreitas, feitas de paralelepípedo. Ali ninguém ousava jogar lixo no chão e a cidade exalava um cheiro bom de flores, de mato. Mas no verão ela cheirava a frutas, um cheiro de praia, um cheiro de férias.
Lá nunca era muito quente, nem muito frio. Chovia na hora e na medida certas e ao anoitecer a lua mostrava seu sorriso cúmplice para os amantes. Em noites de lua cheia, nenhuma luz se via na cidade, era a lua que a iluminava por completo, deixando um rastro nos rios que hipnotizava os peixes, os pescadores e todo o lugar.
Ali todos davam bom dia, boa tarde, boa noite e ao pôr-do-sol o cantar dos passarinhos eram quase como uma melodia que se despedia do dia para abraçar a noite calma e serena. A vizinhança toda se conhecia. Ninguém era mais rico ou mais pobre. Não faltavam frutas, peixe, leite, comida. As árvores eram abastadas, os campos eram verdes, os animais eram fortes e as pessoas saudáveis.
As crianças não trabalhavam e todas estudavam. As moças colhiam flores que enfeitavam seus cabelos e vestidos. Os idosos eram respeitados e sábios, proferiam palavras que o lugar inteiro ouvia, seguia e apreciava. Ali todo dia se aprendia algo e se ensinava a ser ainda melhor. É que todo dia era melhor que o anterior.
As famílias eram unidas e as pessoas também. Se algum estranho aparecia, logo o deixava de ser, era acolhido e aceito, e por ser lhe dada tamanha confiança e respeito, nenhum deles tinha coragem de fazer mal qualquer para aquele que lá moravam e logo aprendia a ser um pouco mais humano.
Era um lugar de gente um pouco mais humana. Um pouco mais alegre, um pouco mais esperançosa, um pouco mais educada. E um pouco menos rancorosa, um pouco menos vingativa, um pouco menos egoísta e assim, um pouco menos doente. Lá não havia guerra e não, não era preciso brigar, gritar, disputar. E ao contrário do que possa parecer, não era entediante morar lá.
Para cada moça de flor no cabelo havia um par. Para cada chapéu a sua saia, para cada pé o seu sapato. A todos era dada a chance de um verdadeiro e duradouro amor e todos a recebiam de braços abertos, deixando brotar o fruto mais verdadeiro deste sentimento. E os filhos cresciam em harmonia com a natureza, com a força humana da bondade e multiplicavam-se ainda mais em amor.
Ali se chorava sim e porque sempre existem dias em que ficamos tristes, até porque a felicidade só é felicidade se houver a tristeza, senão nem saberíamos o que é ser alegre. Mas o choro cessava rápido e sempre havia um ombro pronto para o consolo, parece que lá Deus estava mais perto de todos.
O verde era verde, o azul era o mais anil, não havia fumaça, não havia cinza, só havia cores e o arco-íris sempre estava sorrindo no céu. Ali se chamava amor, ali se chamava paz, esperança. Ali se chamava sonho.



